A IA já está na sala de aula. Estamos ensinando a questioná-la?

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O desafio da inteligência artificial na educação não é apenas ensinar a utilizar uma nova tecnologia, mas desenvolver a capacidade de compreender seus limites, questionar seus resultados e assumir responsabilidade pelas decisões.

A inteligência artificial já está na sala de aula. Proibir seu uso não ensina os alunos a lidar com ela. Permitir sua utilização sem critérios tampouco garante aprendizagem.

Entre esses dois extremos, existe uma responsabilidade que considero cada vez mais importante no exercício da docência: formar pessoas capazes de pensar criticamente em um mundo no qual a tecnologia participa, de maneira crescente, da construção de respostas e da tomada de decisões.

Durante a Conferência do Instituto Ethos, duas reflexões me mobilizaram especialmente: a necessidade de construir respostas coletivas para os desafios contemporâneos e a urgência de compreender a inteligência artificial como uma questão ética, social e institucional — e não apenas tecnológica.

Essas discussões ultrapassam os limites da educação. A IA já influencia a organização do trabalho, o acesso a serviços, a circulação de informações e as decisões que afetam pessoas, empresas e a sociedade.

A pergunta, portanto, deixou de ser apenas se devemos utilizá-la. Precisamos discutir com quais objetivos, critérios, limites e responsabilidades.

Quando a tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade de compreendê-la

Um dos desafios contemporâneos está na distância entre a velocidade do desenvolvimento tecnológico e a capacidade das pessoas e instituições de compreender, avaliar e governar seus efeitos.

No Brasil, essa diferença já aparece nas pesquisas sobre educação.

Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, 70% dos estudantes do Ensino Médio usuários de Internet já utilizavam ferramentas de IA generativa para pesquisas escolares. Entretanto, apenas 32% afirmaram ter recebido orientação sobre como utilizar essas tecnologias.

Esses dados revelam uma questão importante: o acesso e a utilização de uma ferramenta não significam, necessariamente, a capacidade de compreender seus resultados e consequências.

Saber interagir com a inteligência artificial é diferente de saber avaliar aquilo que ela produz.

Letramento em IA vai além de formular bons comandos

Como docente, percebo que meu papel não pode se limitar a permitir, proibir ou identificar o uso da inteligência artificial.

O desafio pedagógico é criar situações de aprendizagem nas quais os estudantes consigam explicar seu raciocínio, comparar fontes, avaliar evidências, reconhecer vieses, identificar erros e justificar suas escolhas.

Isso também significa compreender que uma resposta bem estruturada pode estar incorreta, que os resultados produzidos por sistemas de IA não são necessariamente neutros e que determinadas decisões exigem conhecimento do contexto, julgamento humano e responsabilidade ética.

Há ainda uma dimensão fundamental: a autoria.

Quando a IA substitui precocemente a leitura, a escrita, a formulação de hipóteses e o esforço de construir uma resposta, o estudante pode deixar de desenvolver competências essenciais para sua autonomia intelectual.

Por outro lado, quando utilizada com intencionalidade pedagógica, a ferramenta pode ampliar possibilidades de investigação, oferecer diferentes perspectivas e provocar novas perguntas.

A diferença não está apenas na tecnologia utilizada, mas na maneira como organizamos as experiências de aprendizagem.

O que a sala de aula nos ensina sobre o futuro do trabalho?

Na educação profissional, essa discussão assume uma relevância particular.

Não estamos formando pessoas apenas para executar as tarefas que existem hoje. Estamos contribuindo para o desenvolvimento de profissionais que precisarão atuar em organizações nas quais funções, conhecimentos, processos e critérios de decisão continuarão se transformando.

Essa mesma reflexão se aplica às empresas.

Incorporar inteligência artificial às rotinas de trabalho não significa, necessariamente, desenvolver maior capacidade organizacional. A tecnologia pode acelerar atividades, mas isso não garante decisões melhores.

Quando não existem critérios claros sobre o uso da informação, a validação das respostas e a responsabilidade pelas decisões, corremos o risco de apenas executar mais rapidamente aquilo que ainda não compreendemos suficientemente.

Por isso, tanto na educação quanto nas organizações, o desenvolvimento tecnológico precisa ser acompanhado pelo desenvolvimento humano e institucional.

Formar pessoas para esse contexto exige mais do que domínio técnico. Exige pensamento crítico, capacidade de aprender continuamente, discernimento e consciência sobre os impactos das próprias escolhas.

A inteligência artificial pode ampliar nossa capacidade de produzir respostas. Mas não deve substituir nossa responsabilidade de formular boas perguntas.

A IA já está na sala de aula e nas organizações.

A questão que permanece é: estamos apenas ensinando as pessoas a utilizá-la ou também as preparando para questioná-la?

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